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Nesse dia, Bernardo disparou um questionamento para o público: "Se a indústria fonográfica diz que baixar música é crime, o que dizer do jabá, que, além de crime, é organizado?".

Freqüência alternativa à da rádio do jabá

O rapper é um dos criadores do Movimento Pelo Fim do Jabá, que mobiliza artistas chamando a atenção para a "política" das rádios comerciais de cobrar pela veiculação de músicas:

— O CD da gravadora não é mais acessível, e o preço do disco não tem razão de ser tão alto.

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Eles falam que é o preço da produção, mas o próprio marketing tem que pagar pra tocar, o que faz aumentar o orçamento do marketing e faz aumentar o preço do disco: é uma bola de neve louca.

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No fim, o que está em risco mesmo é a cultura nacional. Não é por um acaso que são sempre as mesmas músicas que tocam na rádio.

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A idéia de botar as músicas na internet vem da vontade de falar para o maior número de pessoas possível, desaguar mesmo nossa produção, já que o espaço nas rádios é ridiculamente limitado.

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Não fazia sentido segurar: quem iria comprar?

Além de tudo, BNegão não tem o perfil das rádios comerciais brasileiras, atualmente restritas a poucas emissoras agrupadas em rede: sua música não arrebanha multidões, não toca na novela das oito e nem é coreografada pelas bailarinas do Faustão. Alguma chance com as massas? Melhor apostar no crescimento dos mercados de nicho, fenômeno gerado pela queda nos custos de produção e distribuição propiciada pelas novas tecnologias — sem falar no fim da limitação de espaço físico (estoques e prateleiras, por exemplo) para uma cultura que agora circula sem suportes.

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(A desmidiatização proporcionada pelo avanço tecnológico e pelo conceito de portabilidade vem se expandindo para bem além dos produtos culturais como música, literatura e cinema: o que dizer dos Linden Dollars do Second Life, senão que pode ser o início da desmidiatização da própria moeda e de tudo que ela pode comprar?)

Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired, uma das publicações mais respeitadas em termos de inovação, publicou em seu livro "A Cauda Longa" (Campus/Elsevier) sua teoria que demonstra que o desenvolvimento tecnológico, ao tornar cada vez menos fundamental o meio físico, propicia a mudança de foco da cultura e da economia: os best-sellers passam a ter tanta importância no mercado quanto os produtos de nicho.

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O que nos faz pensar em uma abundância caótica de possibilidades. Como separar o que é bom do que não presta para mim? É aí que Anderson fala da importância da "curadoria" de informações através da recomendação, agora exercida não somente pelos agentes "autorizados" (veículos especializados), mas sim por cada um de nós — através do boca-a-boca virtual dos blogs, redes de relacionamento e fóruns de discussão. A força da comunidade é, pois, fundamental para o sucesso de modelos de negócios baseados na Cauda Longa.

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Como diz o livro: "A primeira força, a democratização da produção, povoa a cauda. A segunda força, democratização da distribuição, disponibiliza todas as ofertas.

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Mas isso não é o suficiente. Só quando a terceira força, que ajuda as pessoas a encontrar o que querem nessa nova superabundância de variedades, entra em ação, é que o potencial do mercado da cauda longa é de fato liberado".

Mas, e aí?

Se, quanto mais a obra circula, maior é seu valor de mercado, cai por terra a visão tradicional do fonograma como produto final.

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Assim como se mostram ineficazes todas as tentativas de barrar a circulação de arquivos de áudio na rede. O fonograma se reconfigura como a mais eficiente peça "promocional" de um dos possíveis (e reais) produtos: a experiência da fruição artística ao vivo.

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Em conferência para agentes da indústria fonográfica mundial reunidos no MIDEM (Mercado Internacional de Música), realizado em Cannes no final de janeiro, Chris Anderson sentenciou para uma platéia obviamente relutante: "Tudo aquilo que está ligado ao formato digital será gratuito.

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Serão as outras experiências musicais, isto é, aquelas que não são duplicáveis até ao infinito, que vão ser pagas".

John Perry Barlow, co-fundador da ONG Electronic Frontier Foundation (EFF), defende em seu famoso artigo "The Economy of Ideas" que "a economia da informação, na ausência de objetos, será baseada mais no relacionamento do que na possessão". O artista, a partir da repercussão de seu trabalho na web, percebe que o suporte físico não mais se justifica e que o fundamental é conquistar seu público de forma sensível e inteligente.

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Segundo Barlow, no contexto das novas tecnologias, o dinheiro é ganho não com a música, mas sim através dela.

BNegão diz viver de música no seu sentido mais amplo: sua principal fonte de renda são os shows, não os CDs — sejam os vendidos nos espetáculos, sejam os que a independente Tratore coloca nas lojas.

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A propósito, é interessante notar um disco disponível para download gratuito figurando praticamente todo esse tempo na lista dos mais vendidos da distribuidora.

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O CD físico já vendeu mais de 15 mil cópias (entre revista e lojas), mas Bernardo destaca que a repercussão foi ainda maior no exterior, onde o som só chegou pela internet mesmo.

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E solta uma sonora gargalhada ao falar da incrível desatualização de seu site, para depois argumentar que o novo já está pronto para entrar no ar, que às vezes não dá tempo (além dos shows no Brasil, para este ano estão previstos também um festival no México e uma turnê pelo verão europeu, incluindo aí um festival em Portugal), que no próximo disco querem estar mais preparados... naquela calma...

— Com o "Enxugando Gelo", aconteceu assim: lançamos, rolou de forma viral pela internet, a coisa foi fluindo sem muito planejamento, com uma divulgação meio tosca, e nós fomos avançando.