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O monolito   Tiago Santos Lima   www.editoraplus.org

Editora Plus Editor: Maurício AzevedoPreparação: Eduardo MeloRevisão (versão da editora): Nancy LicksPorto Alegre, março de 2009ISBN 978-85-62069-10-9

Venda proibida.

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Alguns Direitos Reservados

Versão da editora

Silvia, uma comunista

Silvia, uma comunista, está grávida outra vez. Ela gera a criança cuidadosamente: abstém-se do álcool e do tabaco pelos nove meses inteiros, come uma porção variada e generosa de vegetais no almoço e, na janta, dependendo da sua vontade, um pedaço de torta ou um prato de frutos do mar temperado ao seu gosto.

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Às vezes come aspargo, o vegetal de que menos gosta, embora o atire pela janela, na maioria das vezes, onde dorme um mendigo cuja amizade lhe é muito cara.

Quando Silvia dá à luz a criança, mete-a carinhosamente numa caixa, envolve-a em fita crepe e pensa na alegria de seu propósito: remetê-la a Cuba, aos cuidados da família Castro.

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Apesar do percurso não ser muito longo, porém demorado, devido ao congestionamento das linhas aéreas, ela obriga-se a dormir no chão do aeroporto e preocupa-se que a criança possa asfixiar-se dentro da caixa.

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Decide, então, comprar uma tesoura no Duty Free, sessão papelaria, com a qual recorta nove buracos no papelão, em duas colunas verticais de quatro buracos e meio cada, formando um traçado de duas retas, perfeitamente paralelas.

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Espanta-se, como das outras vezes, pelo esmero que vem juntamente com a maternidade.

No último segundo, na última chamada para embarque no portão K, Silvia esboça uma nota explicando-se: “A criança chama-se Freud e deve servir de matéria prima para a confecção de quantos sabonetes puderem ser retirados da sua gordura.

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Sou comunista também. Atenciosamente.” Mas, atentando ao espírito revolucionário, ou seja, julgando-a excessivamente íntima, Silvia não chega a enfiar a nota no buraquinho da caixa.

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Ao chegar em casa, morta de fome – sintoma tardio da gravidez – Silvia acende a luz. Sentados no chão do apartamento vazio de mobílias, estão o seu marido e o resto do grupo familiar: três homens de barba ruiva, sete gatos, duas mulheres pernetas e um papagaio simpático, chamado Freud, o mesmo nome do marido.

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Situa-se num relance: um Freud mais confuso que o outro, temperamentos enfurecidos em constante conflito, batalhas intermináveis entre o humano e o bicho. O papagaio costuma vencer, na maioria das vezes, mas o homem, quando vence, causa ao seu adversário danos irreversíveis, como as cicatrizes na garra direita, uma asa parcialmente inutilizada, o bico nervoso, que, conforme os ditames da guerra, conta pontos a mais.

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Agora, felizmente, parecem atravessar um daqueles alegres períodos de trégua, quando jogam poker juntos, completamente embriagados. Depois de apreender a situação, e, com vista ao retorno da sua dieta de antes do início da mais recente gravidez, Silvia esfaqueia um dos gatos, abre-o pelo bucho, recheia-o com o resto do gato da semana passada e serve o prato aos convidados, acompanhado de uma garrafa adicional de vodka.

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Em meio à festa, Freud parece lembrar-se da ocupação de Silvia nos últimos dias, perguntando: “E o bebê?” Mas Silvia permanece entretida devorando uma bocada, outra, e mais outra, agora bebendo um bom gole de vodka, cruzando as pernas e acendendo um cigarro.

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Solta duas baforadas para o alto e abre um pouco mais o decote; ajeita de leve o vestido vermelho e, preparando-se para responder, bebe outro gole de vodka. Depois, tempera a garganta e murmura cinicamente: “Que bebê?” Freud, o papagaio, repete a pergunta, “E o bebê?” Sílvia torna a perguntar, “Que bebê?” Desistindo deste jogo, já levado em outras ocasiões às últimas e catastróficas conseqüências, o papagaio finalmente cala.

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O marido Freud não ouve nada disso, continua concentrado na sua mão.

Passam-se muitos dias sem resposta, da parte da família Castro. Ao sentar-se para pensar na causa, enquanto manufatura uma bomba caseira, Silvia pergunta-se, confusamente, se fez a coisa certa, ou seja, se o bebê, que não teria condições de crescer decentemente nesse ambiente, ainda assim, não estaria melhor numa casa como a dela, ao invés de uma pia de lavabo cubano.

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Todavia, pensa na função indispensável ao regime ditatorial que ele virá a exercer, limpando as mãos dos poderosos, quem sabe escapando-lhes divertidamente entre os dedos, fazendo-lhes o dia mais feliz com bolhas e bolhas... Sim, fica claro para ela agora, mesmo que não lhe deem uma resposta, Silvia sabe que fez um bem, afinal não era o reconhecimento que ela buscava.

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Por que alguém tão ocupado em promover o bem comum, com uma causa nobre e maior, muito maior e mais valiosa do que ela mesma, deveria responder-lhe? Ao fazê-lo, estaria certamente perpetrando um ato não menos que criminoso, do qual ela seria ao mesmo tempo autora indireta e objeto, resultando disso um atraso burocrático nos escritórios, maior do que o frágil comunismo poderia suportar.

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“Digamos que Fidel me responda”, o que para ela seria, sem dúvida, uma grande honra, pensa: “não representaria para milhares de cubanos carentes uma cesta básica a menos, um dia a menos na vida de uma comunidade inteira?” Silvia termina a bomba, embala-a em plástico e, remexendo no confete colorido dentro da bolsa, abre um espaço para o mecanismo composto por duas bananas de dinamite, um relógio despertador fabricado na China e um emaranhado de fios vermelhos e azuis, cujas funções não são do rol de conhecimentos deste autor, portanto, passarão impronunciadas.

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“Eu fiz a coisa certa”, ela se repete, “eu fiz a coisa certa, eu fiz a coisa certa”.

Silvia perpetra mais um atentado revolucionário contra a mesmice reacionária do governo, mais especificamente contra o prédio em que se localiza a repartição da Previdência Social, próxima da sua casa, embora tenha logrado destruir apenas um consultório odontológico e uma clínica de olhos localizados sete andares acima.

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