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Isso por culpa do ascensorista, que tem aversão a mulheres (ela não suspeita).

“Não faz mal”, tenta reconfortá-la um dos homens de barba ruiva, “O governo vai tomar a peito qualquer atentado produzido num raio de trinta quilômetros de um círculo, cujo centro seja uma repartição da Previdência Social, e isso é, como dizem por aí, certeza”.

- Então não restam muitas áreas incapazes de despertar o menor medo no coração do governo, em caso de explosão? - argumenta Silvia.

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Ao que o homem responde:

- Não, nenhuma. Mas sempre haverá Cuba.

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Silvia sorri.

Ele pergunta:

- Você quer que eu tome conta daquele ascensorista para você?

Ela assente com a cabeça.

Dias depois, recebe um buquê de rosas incrementado de dedos, orelhas, narizes e pequenos fragmentos de ossos humanos.

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Entretanto Freud, o marido, não percebe nada, concentrado que está na sua mão, como sempre. Nem desconfia do flerte com os governantes da ilha, sob a forma do próprio filho que, aliás, não está perfeitamente seguro de ter engendrado.

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A questão é mais ou menos indiferente para ele, mesmo as investidas dos homens de barba ruiva, ou as das do papagaio, seu companheiro de poker, de desavenças, ressacas, etc.. Freud bem sabe que esse outro Freud é um belo animal, um animal em extinção mesmo, mas daí a imaginá-lo na cama com a sua mulher, cingindo-a com as penas verdes tal qual uma galinha acolhendo os filhotes, grasnando, é meio improvável.

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Ele não desconfia do grasnar, nem da sua mulher, nem do papagaio, nem dos gatos. Com razão, neste caso, os gatos sempre foram castíssimos, pelo menos, se comparados a tantos outros por aí.

O apetite sexual de Silvia aumentou enormemente, outro sintoma tardio da gravidez, tanto, e com tamanha persistência, que as sessões de yoga não adiantam mais.

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Pensa que algo mais será necessário para satisfazê-la: “Seria ótimo receber uma carta do Fidel, uma linhazinha que seja, não peço que ele venha me ver, sou uma mulher casada”, ela pensa, “Fidel é um homem comprometido com o seu povo, com a política e o bem-estar de todos.

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Tomá-lo para mim significa privar as massas e eu não quero privá-las.”

Se pudesse dar um conselho a Silvia, este autor não sairia da posição comum: caberia dizer-lhe que tome cuidado com o que deseja.

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Os meses passam e Fidel não vem visitá-la, comportamento inteiramente justificado por ela, com base no raciocínio exposto no parágrafo anterior.

Com efeito, para ser justo com a verdade, este autor deve revelar que Fidel não mandou flores a Silvia, ou cartões, ou qualquer outro sinal de reconhecimento pelo seu gesto, o de enviar o bebê no aeroplano, depois de dias de espera, para que se fizesse dele sabão em barra; que Fidel, se algum dia tomou conhecimento do bebê, e das intenções com que o bebê foi-lhe enviado, provavelmente vomitou por todo o lugar.

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Deste fato não se tem notícia, por conseguinte, não seria absurdo inferir que o bebê, por uma razão ou outra, trágica ou feliz, não alcançou o seu destino.

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Irremediavelmente casada com Freud, Silvia não vê muitas chances de ascender no Partido. Às vezes, na ausência do marido, convida o mendigo que dorme ao pé da janela a entrar em casa e tirar as roupas, o que ela também faz.

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O contraste entre a pele clara de um e a negra de outro, não ilustra (senão pelo inverso) a união perfeita de almas, subjetivamente experimentada, o gozo, por assim dizer.

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Por um instante, nessas ocasiões, ambos acreditam sentir um novo sopro nas suas brasas revolucionárias, um novo vigor, e um novo... Bem, por um só instante. Acabado o sexo, o mendigo volta à sua colocação hierárquica original de pária, abaixo da janela, andrajos sobre andrajos, do lado de fora.

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Nas últimas instâncias do desespero, Silvia adota uma criança, compra uma caixa, coloca a criança dentro da caixa. Faz nove buracos, desta vez, não tão alinhados quanto os noves anteriores e anteriores aos anteriores, quando estava sob os efeitos da maternidade de fato, “essa benção transformada pela modernidade em doença, ao colocar mais gente neste mundo sujo, feio, capitalista”, pensa, “... se ao menos Fidel respondesse”. Entretida com tais pensamentos, Silvia sequer desconfia que a tranqüilidade ostentada por Freud, o marido, encontra fundamento naquelas duas mulheres pernetas que frequentam a sua casa, às claras e às escuras, e cujos nomes, se não lhe falha a memória, são Sara e Samara, ou Branca e Bianca, ou Íngride e Inácia... Verdade seja dita, não obstante o desprezo nutrido pelo marido, se Silvia suspeitasse, minimamente, haveriam três almas corrompidas a menos no mundo, e nenhuma delas seria a sua.

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Daiane

É inverno, um inverno aconchegante este ano. Compramos um aquecedor de teto para o meu quarto, cômodo em que, se tudo correr bem, passarei o resto da vida.

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Sentado ou deitado, nunca em pé. É preferível não desperdiçar energia. Ademais, não seria possível outro jeito, pois eu esqueci de como mexer-me.

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Outro dia ocorreu um evento significativo envolvendo a minha mão, ela mexeu-se, mas os esforços para chegar a tanto me acabaram. Os dedos tremularam, bateram um por vez contra o veludo roxo, depois pararam, querendo significar alguma coisa, certamente.

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Mas, após tantas decepções com interpretações erradas, eu não ligo mais para o que a minha mão faz, quando faz, contanto que não me faça mal nenhum. Não vou reclamar, pelo menos não já, ela tem se comportado bem ultimamente.

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Pela janela, não há janela, pela porta então, entra Daiane, carregando uma bandeja. Diz, “Boa noite, é hora de jantar?”. Eu tenciono dizer, “Não tenho fome, obrigado”, mas não digo.

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Ela deposita a bandeja sobre o meu colo, de qualquer jeito. O peso das bandejas acumuladas não me importa, eu não sinto mais as pernas.

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Suspeito que Daiane ache este um bom método para incitar-me a levantar. “A minha coluna vertebral foi fraturada”, tenciono dizer a ela, quando me irrito o suficiente.

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Mas ela saberia que não é o caso, deve achar-me preguiçoso, talvez com razão. O fato é que, a não ser que não me seja oferecida escolha, e Daiane venha, carregue-me para outro lugar, não me levanto da minha cadeira roxa por nada, muito menos agora, com o aquecedor no teto.