O monolito
Se pudesse dizer, diria a Daiane: “Você me traria alguma comida sobre as bandejas, o que acha disso, hein?”, mas ela não me ouviria, ou faria de conta. Poderia ser que eu não tivesse dito nada, é difícil saber.
Depois ela se retiraria. Calculo que todas as bandejas depositadas no meu colo, até hoje, somam os quilos de uma pessoa adulta, mais ou menos bem gordinha.
É um bom peso para alguém aguentar num curto período de tempo, mas eu tenho todo o tempo do mundo... é a única coisa que tenho. Quando ela se retira, como de hábito, eu fecho os olhos, se é que me importei o suficiente para abri-los com a sua chegada.
Ela é basicamente sempre a mesma, uma mulher, dois braços, duas pernas, como qualquer outra entre as pernas, todos os dias. Constrange-me olhar, toda vez, como se quisesse atacá-la.
Os meus olhos têm essa qualidade, quando olham repetidamente, parecem querer atacar, sobretudo Daiane. Talvez eu queira ou não, me é indiferente.
Algum dia, quem sabe, eu me erga só para atacá-la, segurá-la pela cintura, ela querendo escapar, gritando o quanto me ajudou, e eu ali, um homem, na frente de uma mulher... Daiane não faz o meu tipo, mas ela é a única que parece querer ajudar-me, mesmo não trazendo comida, não sei por quê.
Com os olhos fechados, sozinho no meu quarto, inquieto-me, e quero abri-los novamente.
Se não o faço, em todas as vezes que Daiane entra, por que ficaria olhando por aí, a esmo, feito um louco? No entanto, dá-me essa vontade, mas eu não me submeto, entreabro uma pálpebra.
Pronto, nada de novo, se era o que eu queria saber, realmente. Mas será que, para perceber o que eventualmente pode haver de novo, eu não deveria ao menos entreabrir a outra pálpebra, para ganhar alguma perspectiva, como se diz? É uma longa discussão interna.
Invariavelmente acabo fechando o que havia entreaberto. Começo a ver, contra o escuro da pálpebra, esboços de linhas, de arestas e algumas formas geométricas formando-se, outras mais complexas, como um dodecaedro.
Pronto, é hora de abri-los. Não suporto mais do que um dodecaedro.
Seria bom que Daiane me ajudasse, fazendo-me superar o medo das formas geométricas mais complexas. Só não vejo como poderia fazê-lo.
Ela certamente também não, é uma menina muito inocente. Talvez, quando olha nos meus olhos, ela o faça incidentalmente, mas perceba o que eu penso dela, tenho essa impressão. Não me espantaria descobrir que me teme, e por isso me ajuda.
A minha mão direita tremula vagamente só de pensar nisso. Comprou-me o aquecedor, sem que eu pedisse.
Fingi irritação, mal fingida, é claro, pois não posso mexer-me. Ela não acreditou.
Se eu pudesse, tocaria no corpo quente de Daiane? Não creio, não com essas bandejas, pelo menos. Se ela entendesse que não deve depositá-las no meu colo!
Levantando-me daqui e olhando para baixo, hipoteticamente, encontraria um sulco nas minhas pernas, outro na poltrona, seria difícil verificar qual o mais fundo.
Não tenho esperanças de me fazer entender, tenho outras esperanças. Espero ver a cor da minha poltrona mudar, uma delas.
Roxo não me agrada. Foi Daiane quem comprou toda a mobília, quando me mudei para cá, sem pedir a minha opinião. Ademais, eu não poderia dá-la, visto que não tinha uma.
Se tivesse, creio que a guardaria para mim, sobre o mármore da lareira, numa caixinha afetada de chumbo, pesada e negra como a de urna funerária. Todo o cômodo é roxo, todos os móveis, a estante inclusive, e também o aparador, tudo roxo, talvez para combinar com a minha cara.
Fechar os olhos com tanta frequência pode decorrer disso, de não querer me intoxicar com essa cor. As arestas das formas geométricas que me ocorrem são douradas, vagando contra o fundo negro das pálpebras vazias, a superfície negra, vértices pontiagudos, linhas, tesouras.
Não sou nada hábil com tesouras. Nem com tesouras, nem com carros, nem com crianças, nem com mulheres, nem com máquinas de escrever, nem com trabalhos braçais, nem com homens, nem com bicicletas, nem com velhos... Ah! São muitas as coisas com relação às quais eu absolutamente não sou habilidoso.
E, talvez, nem se possa falar em falta de habilidade no meu caso, uma vez que não posso mexer-me. Daiane auxilia-me.
Quando não agüento mais ficar sentado, ela me deposita de bruços no chão, a barriga dói, vira-me de costas, as costas cansam, não é problema, ainda tenho os dois lados, o direito e o esquerdo.
Dá algum trabalho virar-me, não nego, talvez Daiane seja, afinal, de algum valor, pelo menos para mim. um valor pouco elevado é verdade, mas eu mesmo não ando tão em alta.
Depois volto à minha poltrona roxa. Isso é que é vida, mas não vem ao caso, pois quando os meus membros, cansados de descansar em uma determinada posição, ficam roxos, eu nem sempre percebo.
O primeiro aviso que tenho me é dado ao fechar os olhos. As formas demoram a aparecer, quando o fazem, aparecem pouco nítidas, amebóides.
Abro os olhos então, procurando voltá-los para baixo, já desconfiado. Caso a minha posição não me permita tanto, começo a gritar.
Grito: “Daiane, venha ver se estou roxo”, não, minto, não é assim - não gosto de mentiras-. Eu gostaria de gritar o que disse, é certo, mas o meu controle sobre o trato vocálico é muito relativo.
Em dias bons, consigo articular três ou quatro palavras, mais ou menos inteligíveis. De regra, nenhuma delas calha de ser, “Daiane!”, “Venha!”, nem, “Roxo!”. Não sei o que grito exatamente, quando me encontro na iminência de um sério caso de gangrena, mas grito com a intenção de dirigir o meu chamado especificamente a Daiane, para não haver dúvida.
Em se tratando de saúde, é preciso não facilitar.
Talvez devesse acrescentar o sobrenome? Não sei onde estou, exatamente, mas não acredito ser possível viverem sob o mesmo teto duas mulheres chamadas Daiane, isso me parece absurdo.
Estou pronto para admitir, frente às evidências concretas, que sim, essa é uma possibilidade afinal. Bem, não importa, pois ela não me entende mesmo assim.
Ninguém me entende, muito menos ela. Não obstante, ela aparece na porta do meu quarto, como faz agora.
Eu estive gritando? Vá saber. “O que o senhor deseja?”, pergunta-me, sempre tão meiga, tão suave.
Eu resmungo alguma coisa, querendo comunicar-me, mas, de fato, não sei se é má vontade ou se nada desejo. Gostaria desejar alguma coisa, só para agradá-la, mas não sei o quê. Contudo, veja até onde nos leva a compaixão, com o fim de esboçar um sorriso, luto contra a minha cara impassível, perdendo, é claro.
Mas não me decepciono, já estou acostumado, o meu corpo, apesar de pequeno, sempre foi demais para mim. Bem, se não mais conservo uma vantagem por não conseguir me exprimir nem de longe, qual seja, ela pensa que sim, que eu quero alguma coisa.
Não andei gritando, se andei, foi só por pirraça. Vem-me à cabeça a idéia de que, se eu estivesse roxo em algum lugar, ela me seria útil agora, portanto me arrisco a querer estar roxo.